dia 8 – adiós, depressão e extras

Não foi frescura nem manha para não ir embora. Acordei péssimo. Febril, com dor de garganta, no corpo, espirrando e tossindo.

Tomei o café com uma imensa vontade de viver ali para sempre. Voltei para o quarto e tomei um resfenol para parar de espirrar e não dar vexame no avião [como já aconteceu]. Quem foi nos buscar foi o motorista do primeiro dia. Muito gente fina, fez questão de nos levar até o check-in para ver se tudo estava certo.

O voo até Santiago foi tranquilo, até deu para ver o cume do Osorno da janela do avião. Como tinha tomado remédio, o sono bateu. Chegamos em Santiago às 12:45 e o voo de volta saía 13:10. Corremos sem saber para onde ir. Eu achava que nossos trâmites de saída seriam feitos nos guichês de um corredor que teoricamente ligaria o terminal doméstico ao internacional. Mas tivemos que sair, subir para o embarque e enfrentar a fila do embarque internacional. E que fila! Estava preocupado porque estávamos em cima da hora, queríamos ir no banheiro e passar no free shop. Assim que passamos pela polícia, nos separamos e entramos no free shop para comprar alguns vinhos. Pagamos tudo com os pesos que tinham sobrado e ainda sobrou. Como Murphy é amigo de todo mundo, nosso portão ficava bem distante. Voamos. Felizmente o voo estava atrasado.

IMG_1032Foi mal pela qualidade da foto.

Deu para ir no banheiro. De longe vi que o povo ainda não estava embarcando. Peguei minha mãe na porta do banheiro e fomos gastar o que tinha sobrado de pesos. No fim deu tudo certo. O voo pro Rio também foi super tranqüilis e eu não tive nenhum problema, nem dor de cabeça.

Mas foi só pousar no Galeão que a depressão começou a bater: o finger era um forno e o terminal não estava muito melhor, pois o ar condicionado não estava funcionando. As bagagens demoraram uma vida para dar as caras. A esteira enguiçou por quase dez minutos e não tinha um funcionário para dar informação. Com muito custo as bagagens apareceram. O Galeão é o inferno!

Enfim, o Rio e o Galeão são a melhor forma de entender que a viagem acabou. Nada de suco de framboesa, de congro, de pisco sour, de montanha com neve. Foi como ser jogado no lixão pela Carminha. A gente fica dramático. Um choque!

Quase dois meses depois da viagem, ainda sinto muita falta de tudo. Mas como tratar a depressão pós-viagem? Relembrando, é claro. Durante a montagem dos posts, invariavelmente tive que confirmar informações e endereços. Foi como viajar de novo. Mentira, mas lembrei dos lugares, dos cheiros, da luz… Há um outro método, que também serve como uma introdução ao Chile. Mas por outra perspectiva.

Como disse num dos posts, o Chile tem dois escritores vencedores do Nobel: Pablo Neruda e Gabriela Mistral. Mas talvez a pessoa mais popular da literatura chilena seja Isabel Allende, sobrinha de Salvador Allende [seu pai era primo do ex-presidente].

A Casa dos Espíritos. O romance acompanha gerações da família Trueba, fazendo um paralelo com a história do Chile dos anos 1920 até a Ditadura nos anos 1970. Após ser rejeitado por diversas editoras, Allende conseguiu publicá-lo na Espanha e virou um best seller. Em 1993, ganhou uma adaptação com Jeremy Irons, Meryl Streep, Antonio Banderas e Glenn Close. Mas as filmagens aconteceram em Portugal e na Dinamarca.

O Caderno de Maya. O mais recente romance de Allende se passa nos dias atuais e conta a história de Maya, uma jovem americana que se acaba nas drogas e vai buscar refúgio na Grande Ilha de Chiloé.

noO cinema chileno não é muito popular por aqui. Os que atravessam as fronteiras são geralmente uma analogia política do país.

Machuca. A história se passa num período conturbado do governo Allende, quando esquerda e direitas estraram em conflito. Quando a escola mais elitista de Santiago passa a aceitar alunos pobres, Pedro Machuca acaba sofrendo as consequências das diferenças de classe, mas também faz amizade com um menino rico, Gonzalo.

Tony Manero. Um tanto polêmico e que divide opiniões. Raúl é um homem de cinquenta e tantos anos obcecado por Tony Manero, o personagem de John Travolta em Os Embalos de Sábado à Noite. Seu sonho é ser o personagem e por ele, Raúl até comete crimes. Não é um personagem agradável, muito pelo contrário. O pano de fundo é a violência imposta pela Ditadura de Pinochet.

No. Este concorreu ao Oscar de filme estrangeiro em 2013 e também foi dirigido pelo Pablo Larraín, de Tony Manero. A história se passa nos anos 1980, quando Pinochet passou a ser pressionado por outros países. Ele então convoca um referendo, se devia continuar no poder ou não. Para ele, o referendo estava no papo, mas um jovem publicitário, filho de um ativista político, começou uma campanha pelo “não”. No fim das contas, a campanha, tão moderna quanto os comerciais de refrigerante, acabou levando o povo a votar pelo No. O chato do filme, é que você fica com o jingle tocando na cabeça: “Chile, la alegria ya viene”.

Gloria. Este não tem um viés político e estava no hall para ser indicado ao Oscar 2014, mas sua protagonista levou o Urso de Prata, em Berlim. Gloria é uma cinquentona que se divorciou há 10 anos e busca autoafirmação. Ela não se esconde e mostra como a sociedade chilena mudou desde os tempos de Allende e Pinochet. Parece uma comédia, mas é mais drama.

Na televisão, Prófugos surpreende por sua qualidade de texto e produção. A série de duas temporadas narra a fuga de quatro homens pelo Chile depois de uma mal sucedida operação de narcotráfico. Eles fogem tanto dos federais quanto da máfia das drogas. Selo HBO de qualidade.

Anúncios

4 pensamentos sobre “dia 8 – adiós, depressão e extras

  1. Zarela Díaz disse:

    Parabéns de novo. Você fugiu do lugar-comum, e faz um relato leve e engraçado. Adorei as referências a Isabel Allende, aos livros e filmes. Estive no Chile em 1992, em lua-de-mel, e agora vou voltar lá por causa de Chiloé, depois de ter lido “O caderno de Maya”. Curiosamente, a maioria das opiniões sobre Chiloé é negativa, e pode ser até que eu não vá até lá, mas durante minha pesquisa e planejamento de viagem, terminei me interessando por Puerto Varas, Pucón e até por Cajón del Maipo. Chego ao Chile em 23 de fevereiro de 2015, um ano depois da sua volta “depressiva” (kkkk), e espero voltar tão ou mais apaixonada que você.
    Um abraço.

    • alexandre disse:

      Oi, Zarela! Muito obrigado pelos comentários!

      Acho que muita gente acaba não gostando muito de Chiloé porque tudo ali é bem bucólico. Não é um lugar especialmente bonito, mas o clima é bem diferente. Isso você vê nas pessoas, na geografia, nas construções, no ar e até em como tempo passa.
      Puerto Varas é uma cidade muito bonita, se para lá, vale muito a pena pegar um ônibus e passar o final de tarde em Frutillar, que é parecida com P.V, mas menos turística e de onde se tem a vista mais bonita do Vulcão Osorno.
      Pucón eu não conheci, mas quem foi disse maravilhas – e as fotos são incríveis.
      Muitas saudades do Chile, não só das paisagens (e da comida), mas também do povo! Boa viagem e aproveite bastante!

      Abraço,

      Alexandre.

  2. Muito bom seus relatos!! Estou indo para o Chile agora em setembro, e estou adorando ler. Ótimas dicas!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: