dia 6 – chiloé – onde vivem os monstros

Pinguineras 14

Como sabia que o clima na região era bem incerto, tinha pedido à Paola, a pessoa que me atendeu na agência, para que reservasse o dia com tempo bom [ou mais ou menos bom] para o circuito Vulcão Osorno, Saltos de Petrohué e Lago Todos los Santos. Como o tempo ainda estava feio, o primeiro dia de excursões foi para Ancud e Puñihuil [para ver os pinguins], na Ilha de Chiloé. Ou Isla Grande de Chiloé, como gostam de dizer. Isso era meio óbvio, mas achei legal ela ter frisado este detalhe com o Juan Pablo.

O café da manhã da Casa Kalfu era simples, mas muito bom. Tinha pães [que eu não gostei muito, mas eu sou muito chato para pães], cerais, porções de frutas e um kuchen [bolo, em alemão]. No sul do Chile, o kuchen geralmente é uma torta de fruta, seja tipo crumble ou massa, fruta e creme. No hotel era sempre tipo crumble, que eu gostei muito mais. Suco natural era trazido à parte, ovos mexidos também. Como eu não sou uma pessoa de café da manhã tipo colonial [juro que não faço questão alguma daquela mesona com bolo mesclado e esculturas de melão e melancia], tava ótimo! Aliás, ninguém reclamou em nenhum dia.

Juan Pablo foi nos buscar às 8:30 e pegamos a mesma Panamericana até Pargua, onde entramos direto numa balsa para atravessar o Canal de Chacao. O tempo estava ruim na Panamericana, mas foi melhorando, e ele explicou que as margens da via eram desabitadas por causa da umidade do solo. Tão úmido que basta cavar 5 cm pra encontrar água. Sabendo disso, o governo do Chile dá incentivos fiscais para indústrias e empresas [como beneficiadoras de salmão] se instalarem ali. Há também plantações de eucalipto para secarem a área [o eucalipto suga o lençol freático].pinguineras rota

Mapa surrupiado do site da agência. Juro que eu achava que era mais perto.

Pausa para dois parágrafos explicativos:

Eu não sei se você sabe, mas quase todo salmão consumido aqui no Brasil vem de fazendas no Chile. Mais precisamente ali no sul da região dos lagos. Atualmente, o Chile é o segundo maior produtor no mundo, atrás apenas [por pouco] da Noruega. A cultura do salmão se consolidou na década de 1980, quando o peixe era artigo de luxo, mas hoje enfrenta as críticas de muitos, justamente por ser uma cultura nada sustentável que está alterando dramaticamente o meio ambiente local [bactericidas e rações no mar]. Em 2007, uma epidemia causou a morte de um grande número de peixes, o que obrigou os produtores a seguir novas normas.

Perto de Puerto Montt fica Monte Verde, o sítio arqueológico mais antigo das Américas, que põe em xeque a teoria de que o continente só passou a ser habitado 11.500 atrás, quando tripos nômades passaram da Sibéria para o Canadá. Segundo as recentes descobertas, estima-se que os primeiros habitantes chegaram há 12.500 anos. O mais surpreendente é que encontraram ossos de galinha, que datam de antes da chegada de Colombo. E ao fazerem testes, descobriram que era de uma espécie encontrada na Polinésia. Essa descoberta foi feita em Arauco, mais ao norte, perto de Concepción.

Fim da pausa.

As balsas que fazem a travessia saem a todo momento e a travessia leva cerca de 40 minutos. Estava frio, um vento gélido, mas estava bom. Felizmente as nuvens se dissiparam. A balsa tinha cafeteria, banheiros e wi fi! A primeira parada em Chiloé foi em Chacao, onde vimos a Igreja de San Antonio, o principal atrativo turístico. Well, nada demais, mas ela foi construída em 1710. Em seguida fomos para Ancud, que não era tão pertinho quanto parecia no mapa.IMG_0794IMG_0792IMG_0793IMG_0805IMG_0802IMG_0803Juan saindo descompromissadamente da igreja e minha tia entrando.

A Ilha de Chiloé [“terra das gaivotas”, em huilliche] é vista como um lugar tão instigante quanto a Ilha de Páscoa. OK, talvez nem tanto. É, ao mesmo tempo, frágil e brutal. O tempo ali passou de forma diferente. Os primeiros habitantes foram tribos nômades, que se estabeleceram catando mariscos e moluscos. Quando os espanhóis chegaram, fundaram a capital Castro e batizaram a ilha como Nova Galícia. O novo nome não pegou e Chiloé continuou sendo Chiloé. Os jesuítas entraram na ilha e catequizaram os índios. Fizeram o trabalho tão bem que hoje há cerca de 150 igrejas em toda a ilha, algumas são Patrimônio Mundial da Humanidade, mas mesmo assim, a mitologia chilote se manteve firme e forte.

Chiloé foi a última resistência espanhola no Chile. Os revolucionários tentaram invadir a ilha duas vezes e foram bombardeados pelos fortes que protegiam o canal. Na terceira vez, hastearam uma bandeira espanhola na popa e conseguiram passar. A ilha só se tornou parte do Chile oito anos depois de Bernado O’Higgins declarar a independência lá em Santiago. Hoje em dia, o tempo continua passando bem devagar por lá, mas com wi fi e todas as modernidades.

Desculpe os dois parágrafos de aula de história, mas estes foram necessários para justificar porque a ilha é tão importante e diferente. Dá para notar isso nas pessoas e no ar, pois a cidade, pelo menos Ancud, não tem nada de especial e nem é bonita. Em 1960, um forte terremoto sacudiu Valdivia [parte norte da região dos lagos], que acabou ocasionando um tsunami que destruiu Ancud e outras cidade chilotes. Esse terremoto foi o mais forte registrado até hoje em todo o mundo, 9,5 pontos na Escala de Hichter, com consequências até no Japão, e que também fez o vulcão Puyehue entrar em erupção. Nas ruas de Ancud [e imagino que nas de outras cidades também], vimos placas mostrando rotas de fuga em caso de tsunami. Placas vistas também em Valparaiso e Viña del Mar.

Como eu disse, Ancud não é bonita. Primeiro fomos até o que sobrou do Forte de San Antonio, onde vimos os canhões que protegeram a ilha dos revolucionários e também de piratas. Como em toda parte do Chile, lá também tinha cachorros de bobeira. O forte é pequeno e dá apenas para dar uma volta. Ao lado há uma praia, onde algumas pessoas estavam colocando algas para secar. Do forte fomos para o centro da cidade, onde paramos numa feirinha [pobrezinha…] e poderíamos ter ido ao museu, mas estava fechado. Seguimos direto para Puñihuil, na costa pacífica.IMG_0818IMG_0820IMG_0817IMG_0819Ao lado da fortaleza, pessoas retiravam as algas que a maré alta abandonava e colocavam para secar. Os chilenos costumam comer algas em saladas, refogados e até sem nada, pura. O cochayuyo é uma das espécies, mais usada em refogados e cozidos [a foto abaixo foi tirada no La Vega]. Há também uma fruta que parece uma flor, mas não entendi o nome. Segundo a vendedora, come-se como uma alcachofra, retirando pétala por pétala. Há também mariscos e mexilhões secos. Ambas as fotos foram tiradas no mercado de artesanatos de Ancud.La Vega 4IMG_0826 IMG_0825

A parte rural da ilha é muito mais bonita. Na verdade, parecem aqueles pastos suíços povoados por vacas e ovelhas. Milka! E como vimos ovelha e vaca. Aquela, segundo o guia, era a paisagem típica do interior de Chiloé. Quando Darwin passou pela ilha, ele a descreveu como um lugar coberto por uma intensa floresta. Tão intensa que os pássaros não conseguiam pousar no chão. Poucas décadas depois da passagem de Darwin, Chiloé se tornou o maior fornecedor de dormentes para ferrovias de todo o continente. Aliás, a cultura da madeira é presente em toda a região. Antigamente, usavam o alerce para a construção de casas, mas hoje o corte desta árvore é proibido. Além da durabilidade, a madeira esquenta e, por ser flexível, não desmorona com abalos sísmicos.

Como disse no post sobre Valparaíso e Viña del Mar, a Cordilheira da Costa vai até Chiloé, e ela divide a ilha em dois ecossistemas. Chove e venta muito em todo o território, mas com mais intensidade na costa oceânica. Passada a cordilheira, a vegetação é mais baixa e mais própria para aguentar as fortes rajadas de vento. E a surpresa, o tempo estava ainda melhor daquele lado!

Entre Ancud e Puñihuil, onde os pinguins vão se reproduzir, são quase 30 km. Passamos por alguns mochileiros pedindo carona, e devem ter andado um bocado, pois quase não vimos carros na estrada. Há transporte público com horários certos que saem de Ancud e vão até Piedra Run. E de repente vimos o mar, o Pacífico em seu azul profundo (bializei). Mar Brava era o nome da praia. Seguimos mais um pouco e descemos já na praia de Puñihuil, de onde saem os barcos para o avistamento de pinguins, comorones e outros animais. Ali é um dos poucos lugares onde as espécies de pinguins magalhães [do Estreito de Magalhães] e humboldt [Galápagos, em menor número] se encontram. A temporada começa em setembro e vai até março.IMG_0806IMG_0872IMG_0874IMG_0876IMG_0836

Na praia, há duas ou três empresas que fazem o tour de barco. Não sei se uma é melhor que a outra ou se há diferença nos preços, pois saímos do carro e fomos direto para um barco que estava saindo [as saídas começam às 10:30h e vão até 17:45h]. Foi só o tempo de dar alguns dados [nome, nacionalidade e idade] e colocar o colete. E não se preocupe, você não molha os pés para embarcar, há carrinhos com plataformas que te levam até o barco.

A navegação foi de mais ou menos 30 minutos, que passaram rapidinho. Não vimos muitos pinguins, tivemos a sorte de ver uma lontra do mar, mas o passeio valeu super a pena! O céu estava aberto, o lugar era deslumbrante e todos [não só a gente, mas todos no barco] estavam muito felizes. O serviço também foi muito simpático. A dolorosa não foi tão dolorosa assim. Cada um pagou 6.000 pesos [pouco menos de 30 reais – jan/2014], e fomos de Pinguineraland.IMG_0840IMG_0838Pinguineras 13

Almoçamos ali mesmo, no modesto restaurante Bahía Puñihuil. Quando eu digo modesto, eu quero dizer que ele era simplesinho demais! As opções não eram muitas [o que eu acho até bom], mas era peixe com batata ou arroz. Carne com batata ou arroz. E realmente era só isso. Um peixe com duas batatas cozidas ou com uma porção de arroz. Pelo menos a conta foi baratinha e o banheiro era limpinho.

O tempo foi ficando mais feio. A travessia de volta para o continente foi feita debaixo de chuva e num frio congelante. Ninguém quis sair do carro. Só eu, mas voltei rapidinho. Se eu achava longo o percurso entre Puerto Varas e Pargua, a volta pareceu muito mais longe. Um sono…  O tempo em Puerto Varas estava pior que do primeiro dia. Melhorou um pouquinho, só pra gente poder dar uma badalada pelo centro.

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A Mitologia Chilote é meio parecida com a grega em sua complexidade, graus de parentescos e hierarquias, com punições e recompensas, e servia para explicar origens e fenômenos naturais. Na mitologia, Chiloé nasceu da batalha entre duas entidades [ou deusas] em forma de serpentes. Tentén-Vilu [ou Trentren-Vilu], deusa da terra e de tudo que existe nela, e Coicoi-Vilu [ou Caicai-Vilu], deusa das águas. Um dia, Coicoi apareceu e inundou toda a parte baixa do continente [pois Chiloé não era uma ilha], querendo aumentar o seu reino, deixando submersos pessoas, plantas e animais. Tentén logo apareceu e salvou o que pôde, elevando a terra e transformando pessoas e animais em pássaros. O duelo entre as duas serpentes durou um bom tempo e Tentén saiu vitoriosa, mas uma parte do continente tinha se desprendido e vários ilhotes se formaram. Assim nasceu a Isla Grande de Chiloé.

Há, obviamente, semelhanças com lendas de outras culturas, inclusive com as brasileiras. Se por aqui o boto vira homem e engravida virgens, em Chiloé, esse papel é do Trauco, um homem de 80 cm que vive na floresta. Há quem diga que ele seja lindo e gostoso, já outros dizem que ele é feio que dá dó, mas muito sensual [seja lá o que isso significa]. Quando ele avista uma virgem na floresta, seu machado vira uma flauta e ele a enfeitiça. A pobre morça acorda descabelada, sem roupa e sem se lembrar de nada. Nove meses depois nasce o filho do Trauco, que irá substituí-lo quando se tornar adulto. Outras lendas chilotes você encontra aqui.

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Serviço: Tirando a parte rural e meio misteriosa, Chiloé [pelo menos Ancud] não fez meus olhos brilharem. Mas caso queira conhecer a ilha, passe uma ou duas noites em Castro. Se a ideia é só ir ver os pinguins em Puñihuil, vale contratar os serviços de uma agência ou alugar um carro. As estradas foram reformadas recentemente, então a infra-estrutura da ilha melhorou bastante.

Castro conta com um pequeno aeroporto com voos comerciais. As cidades mais populosas depois de Castro são Dalcahue e Queilén.

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Um pensamento sobre “dia 6 – chiloé – onde vivem os monstros

  1. Zarela Díaz disse:

    Uma forma diferente de relatar. Gostei muito. Parabéns.

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