dia 3 – aconcágua – nas montanhas da loucura

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Quando eu vi um post sobre o bate-volta pro Aconcágua, eu imediatamente coloquei a excursão no roteiro. Sabia que ia ser puxado e perderia um dia em Santiago, mas também sabia que ia valer a pena mesmo que ficasse o tempo todo dentro da van. Valeu muito. Para mim, foi o melhor de toda a viagem, e olha que fui para lugares incríveis!

O Cristian ia nos pegar às 7h. Meu café da manhã foi uma banana meio verde e um potinho de gelatina de laranja. Sabia que ia passar fome [e passei] nas horas seguintes! Bom, antes preciso apresentar o Cristian, senão fica parecendo que ele é o cara da lotação que leva o povo pra Praia Grande. Ele é o proprietário, habilidosíssimo motorista e guia da Andes Wind. Sua especialidade é levar gente comum, como você e eu, até o Parque Provincial Aconcágua, já na Argentina, para fazer um trekking e ver o magnífico Aconcágua, o ponto mais alto do mundo fora do Himalaia. São 6.962 metros acima do nível do mar. Soube do tour através deste blog, enquanto procurava informações sobre a virada do ano em Puerto Varas. Meu contato foi apenas por e-mail e os comentários que encontrei pela internet eram bastante elogiosos [o meu já está lá].  

Cristian foi pontual e muito simpático. Foi engraçado conhecê-lo, porque esperava um cara tipo Paulo Cintura, meio professor de educação física de colégio. Que nada, ele era o oposto. Super tranquilo, daqueles que sabem ouvir o vento e ler as nuvens. Entramos na van e buscamos um casal no “bairro” Paris-Londres e um cara na Bellavista. Só para ser claro, Paris-Londres não é um bairro, são apenas duas ruas no centro que lembram [pelo menos assim as pessoas dizem] as ruas destas duas cidades. Todo mundo na van tinha cara de gringo, mas era tudo brasileiro! Rararara! E pensar que demos “buenos dias” e “good morning”.paris-londresParis-Londres.

A viagem até o parque levou cerca de 3 horas. Sim, é longe! Durante a primeira hora, a paisagem foi como a de qualquer rodovia, com fábricas e sedes de transportadoras nas margens. O terreno era bem árido neste início. De repente, o cenário começou a mudar. Plantações e parreirais começaram a aparecer com a cadeia de montanhas no fundo. E começamos a subir! Tudo era impressionante, gigantesco e absolutamente lindo! Cada pico mereceu as dezenas de fotos que tiramos. A melhor parte foi quando subimos Los Caracoles e depois atravessamos o Túnel Cristo Redentor, a exata fronteira com a Argentina. Os trâmites de saída do Chile e entrada na Argentina foram feitos no posto Horcones. Felizmente não havia fila e o procedimento foi rápido. É a chance de usar o banheiro. estradaDSC02887aconcagua 6Andes

De lá seguimos cerca de 2 km até a Puente del Inca. Apesar do nome, os Incas não passaram por ali.A formação da ponte é natural e passa por cima do rio Las Cuevas, um afluente do rio Mendoza. Especula-se que a ponte se formou durante o degelo da última era glacial. A cor amarelada vem dos minerais que saem das fontes termais onde ficam as casinhas. No início da década de 1960, construíram um hotel bem ao lado para que os ricos hóspedes pudessem se banhar nas águas termais. Só que a mentalidade da época não previu que o lugar ficava no meio dos Andes e uma avalanche destruiu o hotel. Uma tragédia! Milagrosamente, a ponte e as casinhas permaneceram intactas. Até 2006 era permitido cruzar a ponte, atualmente, apenas os comerciantes da feirinha em frente podem passar para mergulhar objetos como garrafas, vasos e sapatos nas águas termais. Os objetos ficam um bom tempo, 9 semanas, e depois saem calcificados, da mesma cor da ponte.Puente del IncaPuente del Inca ruínasPuente del Inca artesanatos

O nome do lugar vem da lenda de que um poderoso chefe Inca buscava um lugar milagroso para curar seu filho enfermo. Ao saber das águas termais, rumou até o lugar com seus melhores soldados. Só não contava com o rio. Foi então que os soldados se abraçaram e formaram uma ponte. O menino foi curado, mas quando viram, os soldados haviam se transformado numa ponte de pedra. Darwin também passou pela ponte em sua segunda viagem pelos Andes. Ele fez alguns desenhos. No inverno, o lugar fica coberto de neve.

Não ficamos muito tempo por ali, o suficiente para contemplarmos. Até por quê, não há muito o que fazer. Aos interessados, além das barraquinhas, havia também uma cafeteria com banheiro. Bom, acho que fica implícito que é preciso consumir para poder usar o banheiro. Minha tia comprou um cafezinho ali, mas não lembro se ela pagou com peso chileno ou com dólar.

Voltamos pela estrada novamente até o posto Horcones, desta vez apenas para o Cristian comprar os sanduíches que seriam o nosso almoço. Eu fiquei feliz quando ele me perguntou se alguém era vegetariano, sinal de que comeríamos em breve. Mas não…

Da estrada vimos montanhas incríveis, não só de tamanho, mas também de cores. Algumas rosadas, outras mais azuladas. E também, é claro, o Aconcágua. A entrada do Parque Provincial Aconcágua tem vista do lado sul do Aconcágua, a parte mais difícil de se escalar. Pelo que o Cristian disse, a dificuldade de se escalar o Aconcágua é mais pelas condições climáticas que pela técnica. Ele é um dos sete cumes mais difíceis do mundo. Recentemente, um garoto de nove anos foi o mais jovem a subir o monte. Ele subiu por um caminho intermediário, mas mesmo assim… não é pra qualquer um. Dos muitos que tentam subir anualmente (a temporada vai de novembro a março), pouquíssimos têm sucesso.andesDSC02909

Nossa ida foi apenas para fazer um trekking. Cristian nos deu duas opções, de uma ou duas horas [ida e volta]. Meus tios ficaram apenas com a primeira opção, para ele não forçar a perna. Foram até o primeiro mirante e voltaram para o estacionamento. Nós e os outros três fizemos a segunda opção. Adoro falar que fiz um trekking porque não tenho nenhuma [sério, zero] habilidade esportiva, então fica parecendo que fiz algo muito incrível! Apesar da altitude de 3 mil metros, sentimos apenas um leve cansaço no início. Não estava frio nem quente, mas ventava muito. E o vento trazia pequenas pedrinhas e muita poeira. Seguimos a trilha descansando em alguns pontos ou tirando fotos, cada um no seu tempo. Cristian nos acompanhou o tempo todo, o que achamos louvável! A maioria dos guias diria simplesmente para seguir a trilha.

Bom, devo dizer que apesar de bater muita perna, teve uns momentos que deu vontade de voltar, pois a tal ponte [que seria o nosso último ponto] não chegava nunca. No total, caminhamos 5 km, mas pareceu mais por conta das pedrinhas, do vento, do sol e das subidinhas. Mas valeu muito a pena! Foi o mais próximo que chegamos do Aconcágua. Uma paz e a sensação de perfeição que só se encontra em lugares como aquele. A Terra é fantástica!aconcagua 4aconcagua 7aconcagua 8Me irrita um pouco quando as pessoas dizem que a natureza é isso ou aquilo. Nós somos a natureza. É de uma arrogância tremenda acharmos que somos coisas separadas. Aquelas montanhas, o rio, as pedras, as flores, o gelo e a neve… estamos todos conectados. E neste ciclo, nós somos absolutamente insignificantes. Um símbolo disso é a múmia de mais de 500 anos encontrada no Aconcágua em 1982, uma criança sacrificada, envolta em tecidos, penas e feijões cozidos para a passagem. Nós somos efêmeros e eternos.

No caminho de volta, passamos pela Laguna Horcones, a principal do parque. Linda e com o que me pareceram ser patos (estavam longe, não deu para ver). Sentei-me numa pedra para descansar e esperar um pouco os outros. Foi quando Cristian mandou eu olhar melhor a pedra. Meus Deus, era um fóssil de ammonite! A prova de que, milhões e milhões de anos atrás, o Andes foi o fundo do mar. E havia mais fósseis. Mais uma vez achei a Terra incrível! Vimos também um coelho gigante correndo feito um louco até se camuflar na vegetação rasteira. Depois disso voltamos para o estacionamento, onde finalmente almoçamos!aconcagua 5

O sanduíche de carne estava delicioso! Juro! Coisa que o Anthony Bourdain comeria. A Coca geladinha também estava muito boa. Ainda não acredito como consegui andar 5 km só com uma banana e uma gelatina no estômago.

Os trâmites de saída da Argentina e entrada novamente no Chile foram mais demorados, mas nada complicado. Desta vez no posto Paso Los Libertadores. É que todas as bolsas e mochilas tiveram que passar pelo raio-x. E mais uma vez tinha um cachorro vendo se a gente tinha drogas. Usei o banheiro do posto, que estava meio sujo e tinha uma água glacial. Melhor teria feito se tivesse esperado um pouco até a próxima parada.

Pouco tempo depois estávamos no Ski Portillo. No verão, a estação fica vazia, recebe apenas pessoas para almoçar, grupos de estudantes para “acampamento de férias” e gente como nós, apenas para ver algo impressionante. Entramos e subimos para o segundo andar, passando pelo são bernardo desmaiado na escada. Cacilda, que vista! A Laguna del Inca estava deslumbrante com sua água turquesa. De verdade, parece fake, mas é turquesa mesmo. Ficamos sem palavras. No inverno, o lago congela e as pistas de esqui vão até ele. Como há outras estações mais próximas de Santiago, o Portillo não é a opção mais popular, mas é a casa de equipes americanas e europeias durante o verão no hemisfério norte. Então suas pistas são mais para profissas que para iniciantes [mas tem pista para iniciante]. Descemos e tomamos um café. Sorvete, no meu caso.laguna del inca 2laguna del incaDe tanto ser mexido, o cachorro acordou e posou para fotos com todo mundo. No fim, veio até mim e se esfregou na minha perna, praticamente um terremoto. Ele queria que alguém abrisse a porta pra ele. Saiu e se jogou perto dos potes de comida e água. Descemos mais um pouco e fizemos a última parada, apenas para fotografar Los Caracoles, que havia passado por uma grande reforma no ano passado, limitando o tráfego das 7h às 19h para descer e das 19h às 7h para subir. Durante aquele período, o tour do Cristian saía antes das cinco da matina.portillo sao bernardolos caracoles

Chegamos em Santiago por volta das 19h. Fomos os últimos a ser devolvidos. Como era segunda-feira, a cidade estava bem diferente, muito movimentada e com trânsito em alguns trechos. O passeio foi sensacional! Como eu disse, para mim, foi o ponto alto da viagem. Estávamos cansados e sujos, mas precisávamos jantar.

O jantar foi uma dúvida. Ligúria ou um restaurante japonês. O segundo ganhou por maioria de votos, e o eleito foi o Ozaki, mais ou menos perto do hotel [eu juro que achava que era bem perto], mas deu para ir e voltar a pé.

Uma coisa certa em Santiago é que quase nenhum restaurante japonês é realmente japonês. Geralmente é a fusão da cozinha japonesa com a peruana, muito comum no Peru e uma grande influência na gastronomia chilena. Pedimos dois makis, não lembro exatamente quais, mas um era com atum e o outro de camarão com palta [abacate], ambos com molho teriyaki. Se não fosse pelo molho [que já não sou muito fã, e aquele estava bem adocicado], teria sido melhor. Pedimos também um ceviche, que estava divino, e a grande estrela da noite, na opinião dos quatro [meu voto foi pro ceviche]: espaguete com frutos do mar. Ali provamos o primeiro pisco sour [bebida feita de pisco – aguardente de uva -, suco de limão, calda de açúcar, angostura e, às vezes, clara de ovo], que lembra a caipirinha e é deliciosa quando bem feita, assim como a caipirinha. Não lembro quanto deu a conta, mas deu um pouco menos que 55.000 pesos [5 pratos e 6 bebidas + 10%]. Final de dia super feliz!

Andes Wind: pelo que soube, é necessária uma permissão prévia para ir ao Parque Provincial Aconcágua e o pagamento de uma tarifa. Não sei bem como são estes requerimentos, pois o Cristian já tinha cuidado de tudo. Nos e-mails que trocamos, ele me pediu nome completo, nacionalidade e o número do passaporte de cada passageiro. É recomendado levar a própria garrafa d’água, um boné/viseira, tênis para caminhadas, um casaco (se possível, com gola que cubra a nuca) e protetor solar. Super recomendamos o Cristian. Ele realmente ama aquele lugar e vai fazer de tudo para que a gente ame também.

> Ozaki: Santa Beatriz, 135. Providencia.

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3 pensamentos sobre “dia 3 – aconcágua – nas montanhas da loucura

  1. kkk Adorei o nome do blog! Com seu relato e ótimas fotos, achei que este passeio vale mais do que o Cajon del Maipo, o que vc acha? vou agora em março.

    • alexandre disse:

      Oi, Marcia! Obrigado pela visita.

      Eu não fui ao Cajón del Maipo, mas conheço pessoas que foram e amaram. Eu posso dizer que o Vale do Aconcágua foi um dos lugares mais mágicos que já conheci. Mas também acho que vale levar em conta que os trajetos de ida e volta são bem longos, então fica a pergunta: vale a pena passar tanto tempo na estrada só para caminhar no Vale? Eu sei que para muitos (minha irmã, por exemplo), seria programa de índio.
      O Cajón é mais confortável e oferece mais opções de “entretenimento”. E pelas fotos, também é lindo! Aliás, a Cordilheira dos Andes é incrível!

      Espero ter ajudado! Depois me conta como foi!

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