dia 2 – santiago – city tour

San Cristobal 5

Na minha modesta opinião, é mais legal conhecer uma cidade num dia útil que num fim de semana ou feriado. Gosto do movimento, de ver o povo atrasado, meio de saco cheio e aquela muvuca em que todo mundo se tromba. Claro que tem a parte ruim, como hora do rush e a dificuldade de parar para admirar um prédio, por exemplo. Bom, se nós fizemos isso? Não. Mas gostaria de ter feito, pois o centro de Santiago é meio apagado sem engravatados e comércio aberto. Mesmo assim foi legal porque visitamos o lugar mais legal [na nossa opinião, é claro]. O city tour foi feito com nossos próprios pés. Não acho que aquele tour de pacote valha a pena, pois só li reclamações [aquela velha história de que se vê tudo da janela e só se para em lojinha de souvenir]. Mas o city tour hop-on hop-off pode ser uma boa.

Acordamos cedo. Não que fosse necessário, foi força do hábito mesmo. Ainda mais por causa do fuso-horário. Meus tios já estavam na rua antes das 8h e disseram que não iriam longe. Descemos pontualmente às 8h e nada deles. Atravessamos a Andrés Bello, um avenida que acompanha o rio Mapocho, para tirar fotos do rio e da Grand Torre Santiago, o edifício mais alto de toda a América do Sul, com 300 metros de altura. Voltamos para a porta do hotel e nada deles, quem estava ali era o amigo matinal de quatro patas. Todo o Chile tem uma quantidade impressionante de cachorros de rua, todos de grande porte e bem alimentados, cuidados por comerciantes e moradores. A lenda diz que há um cachorro para cada dois habitantes. Mesmo sendo bem cuidados, dão um dó danado.

No ano passado, uma campanha chamada Estoy Aquí, sobre os cachorros de rua de Santiago virou viral e pipocou por todos os cantos.

Vinte minutos depois, eles apareceram. Estavam procurando um lugar para comprar água, apesar de eu ter avisado que quase nada abria aos domingos, principalmente de manhã cedo. O plano inicial era pegar o metrô e comer algo no mercado La Vega Central, mas achei melhor ir para um lugar melhorzinho [ou mais convencional] e não nos aventurar logo de cara. Felizmente, a Christina, uma amiga e cliente da minha mãe, havia me mandado o diário de viagem que ela fez um ano antes, em que ela citava o café da manhã no Alberto – um bar/restaurante a apenas uma rua de onde estávamos, e era o único aberto nas redondezas.
A calle Santa Magdalena também tem hotéis e flats, e o Alberto Restobar tem convênio de café da manhã com um deles, acho que com o Tempo Rent, mas também serve não-hóspedes. O café é estilo buffet, com pães, frios, cereais, algumas frutas e ovos mexidos. O preço foi 5.000 pesos por pessoa. Nada incrível, mas também nada ruim. Mas foi uma salvação num domingo de manhã.IMG_0263iphonemasato 131iphonemasato 129Rio Mapocho, cachorro do dia e cachorro de todo dia. O do dia estava muito sujo e queria carinho. O de todo dia era limpinho, mas chegava muito perto.

As ruas transversais da av. Providencia são bastante tranquilas e arborizadas, com prédios residenciais e comerciais. Podem não ter aquele charme antigo e autêntico que muitos procuram, mas são bastante agradáveis.
Apenas atravessamos a av. Providencia para pegamos o metrô, onde compramos o cartão Bip! e carregamos para, pelo menos, três viagens [ou 15 viagens, já que éramos 5]. Os vagões da linha 1 são modernos e têm ar condicionado, os da linha 2 e 5, não. Fizemos a primeira baldeação na estação Baquedano para pegar a linha 5 e fizemos mais uma baldeação na estação Santa Ana para pegar a linha 2 e ir até o Mercado La Vega Central, na estação Patronato.

O La Vega não é tão popular quanto o Mercado Central. No entanto, na opinião dos cinco viajantes e de mais alguns turistas descolados, é o lugar mais legal da cidade. Ele fica perto do Mercado Central, mas do outro lado do rio Mapocho e pode ser surpreendente.

Pegar o metrô na Providencia e sair no bairro Recoleta deu um baque. Ao contrário do bairro portenho, o de Santiago nunca foi aristocrático. Parecia uma outra cidade. Como todo entorno de um grande mercado, as ruelas eram sujas, bagunçadas e barulhentas. Meus pais e tios, que não leram o roteiro, fizeram cara de “por que raios estamos aqui”.

O mercado era uma muvuca só: pessoas fazendo compras com carrinho, carregadores e turistas disputando passagem nos corredores e caixotes empilhados por todos os cantos. Mas foi maravilhoso. O frescor, o cheiro dos morangos grandes e intensamente vermelhos, as cores e aqueles produtos que nunca cruzaram as fronteiras chilenas. Cerejas amarelas, batatas de vários tipos, aipos e milhos enormes, tomates gigantes… um banquete sensorial! Sério, essas coisas me emocionam! Compramos pêssegos e cerejas, enormes e negras de tão doces. Mas se pudéssemos, teríamos comprado muitos mais.

Grande parte dos produtos vendidos no mercado vem de perto do Vale de Casablanca e chegam pelas mãos dos próprios agricultores, sem a necessidade de atravessadores. Bom para eles, que ganham mais, e também para o consumidor, que paga menos e tem produtos mais frescos.
Em seguida andamos um pouco mais e cruzamos o rio Mapocho até o turístico Mercado Central. As expectativas eram altas, mas… ficou a desejar. Mesmo indo cedo, não havia muita oferta de peixes. Os garçons dos restaurantes (e qualquer pessoa que trabalhava lá) eram insistentes como vespas, bastante desagradáveis. Um me perguntou de onde eu era. Respondi que era da Nova Zelândia. “Auckland? Auckland?”, ele insistiu. “I’m a hobbit”, eu ia dizer. Só pro meu pai, que adora dar pano pra manga, dizer que vinha do Brasil. Aí foi uma festa e minha mentira foi pelo ralo. Sim, eu sou uma dessas pessoas que contam esse tipo de lorota para pessoas chatas e preenchem uma profissão criativa nos formulários de imigração e hotel, tipo “artista”, “musicista”, “blogueiro da Capricho” ou “escritor”, como foi da última vez. Tiramos algumas fotos e ralamos peito.DSC02851IMG_0281foto 4 foto 1 foto 3Os incríveis produtos do La Vega. Não me pergunte o que são essas coisas vermelhas na última foto.DSC02852DSC02857DSC02853DSC02854DSC02856Vieiras, machas, picorocos & cia no Mercado Central.

Descemos a rua Veinte Uno de Mayo até a Plaza de Armas, passando ao lado da Iglesia de Santo Domingo. No caminho, paramos para o meu pai comprar chinelos numa loja ao lado de uma galeria com cinema pornô. Enquanto ele comprava, dei uma andada pelas redondezas e encontrei este prédio na calle Monjitas, esquina com a Plaza de Armas. Arcos sobre a Pasaje Phillips, onde um dia foi a Galería San Carlos. Uma das coisas que eu mais gosto em viajar é isso, andar e encontrar coisas que me impressionam mais que os pontos turísticos.IMG_0295

A Plaza de Armas estava toda cercada de tapumes, mas estava aberta. O calor era forte, cerca de 30ºC, mas a secura fez parecer mais. Sinceramente, esperava uma praça mais exuberante, mas achei a Catedral incrível! Meus tios foram sentar um pouco enquanto dávamos uma olhada por dentro. A Catedral de Santiago nasceu como uma igrejinha, ordenada pelo próprio Pedro de Valdívia, fundador da cidade, mas foi incendiada pelos índios. Ela foi reconstruída outras quatro vezes, sempre destruída por terremotos. A construção atual data de 1775, com fachada e torres de 1800. Seu interior é luxuoso e gigantesco, mas acolhedor ao mesmo tempo. É uma visita obrigatória se estiver na Plaza de Armas.
Precisávamos trocar mais dinheiro e sabia que, aos domingos, as únicas casa de câmbio de rua abertas eram as da calle Catedral. Ali encontrei a melhor cotação de toda a viagem, com o dólar sendo trocado por 523 pesos e o real por 218. Na Afex do shopping Costanera, o dólar estava sendo trocado por 517 pesos.foto 1 (1) foto 3 foto 4 (1) foto 5

A ideia era andar até o Palacio de La Moneda, mas achei que seria muito esforço pro meu tio, além do calor. Fora que, se a Plaza de Armas estava cercada por tapumes, o La Moneda também estaria. Dito e feito, no dia seguinte passamos em frente e a praça estava fechada para a queima de fogos do Réveillon. Demos uma rápida passada em frente ao antigo Congresso chileno (aka Ex-Congresso, acho esse nome ótimo). Pegamos o metrô na Plaza de Armas e descemos na estação Bellas Artes para conhecer o Cerro Santa Lucía.
Como eu da existência de um elevador na lateral do morro, na av. Sta Lucía. Deixei o povo sentado e fui ver se estava funcionando. Fuen, fuen, fuen! A plaquinha dizia que funcionava só de terça a sábado. Subimos pela entrada dos fundos, apenas até o primeiro nível do cerro, num jardim com o Castillo Hidalgo logo em frente. O lugar é muito gostoso, realmente um oásis no meio da cidade. Tinha gente deitada na grama, lendo sob a árvore ou apenas namorando calorosamente. Foi ali que tomei o famoso e típico mote con huesillos, uma bebida de aparência esquisitíssima e muito comum pela cidade durante o verão. Trata-se de pêssegos desidratados [huesillos] que são cozidos com água, um pouco de canela e açúcar. Esta mistura é gelada e servida junto com trigo cozido [mote]. Então você bebe e come, ou vice-versa. Bem… gostei, não. Era menos doce que eu pensava, parecia calda de pêssego diluída em água, mas o mote… Valeu pela experiência!foto 1 (2)mercedfotoNa primeira foto, o Ex-Congreso Nacional. Depois, uma rua do bonito bairro Lastarria. E o terrorível mote con huesillos. 

O Cerro Santa Lucía [cerro = morro, colina] é o ponto zero de Santiago. Foi aos seus pés que Pedro de Valdívia fundou a cidade em 13 de dezembro de 1541. Dia de quem? Santa Lucia, é claro! Dois fortes foram construídos no morro séculos depois e ainda hoje um tiro de canhão é disparado pontualmente ao meio-dia. No morro também ficava o cemitério dos dissidentes, onde eram enterrados os não-católicos e desvirtuados. Em 1872, o prefeito Benjamín Vicuña Mackenna reurbanizou Santiago e transformou o Cerro Santa Lucía num imenso parque com jardins e praças. Charles Darwin subiu o morro em 1833, como lembra uma placa numa pedra com um trecho de “The Voyage of the Beagle”. Apesar de ter gostado e dito que valeu a pena subir, ele comentou que Buenos Aires lhe pareceu mais agradável, mas essa parte foi omitida da placa.

Se a gente tivesse seguido o plano inicial, teríamos subido pela entrada principal, na av. Libertador Bernardo O’Higgins. Passamos por lá num outro dia, e é realmente mais bonita que a discreta entrada da calle Merced. Então, se tiver disposição e der para fazer, suba por uma entrada e desça pela outra.foto 2 (1)foto 3 (1)

Fomos almoçar no bairro Lastarria mesmo. O restaurante escolhido foi o Caleta Lastarria, que fica no subsolo de um prédio com outros restaurantes e cafés. O restaurante me pareceu uma ótima opção porque muitos não abrem aos domingos [mas andando pelo bairro, vimos pequenos cafés e bistrôs oferecendo cardápio de almoço], e também tinha ótima avaliação no TripAdvisor. Minha mãe e minha tia escolheram mero com legumes. Eu, meu pai e meu tio fomos de costeletas de cordeiro. Meu acompanhamento foi risoto de quinoa, o do meu pai foi legumes salteados e o do meu tio foi purê rústico de batatas. O courvet, sempre uma cetinha de pães com molhos ou pastas, nos apresentou o molho pebre, um delicioso molho típico do chile, feito com cebola, salsa, alho, coentro e pimenta. Parece um molho à campanha, mas um pouco diferente.
O restaurante era pequeno e o serviço foi bastante simpático e prestativo. Provei o suco de chirimoya e achei bom, apenas bom. Não era muito doce, tinha um pouco de cica e um leve gosto de alecrim. Gostei muito mais do suco de framboesa!

[Chirimoya é uma fruta típica do Chile e do Peru, também plantada na Ilha da Madeira. É uma espécie de graviola com fruta do conde ou pinha. A atemoia consumida no Brasil é um híbrido da chirimoya com a fruta do conde].

Os peixes estavam no ponto perfeito, assim como os legumes. Achei que os cordeiros passaram um pouquinho, mas mesmo assim estavam muito bons. O almoço terminou com um café e a conta ficou em 71.280 pesos, incluindo os 10%.

De barriga cheia, continuamos subindo a calle José Victorino até atravessar a Plaza Mulato Gil de Castro. O bairro Lastarria é muito bonito e agradável para caminhar. Havia uma feirinha com poucas barraquinhas, nada que enchesse os olhos. Talvez por causa do dia e horário, O destino seguinte era o Cerro San Cristóbal, a pouco menos de 1 km de onde estávamos. Entre ir de táxi e ir a pé, decidimos caminhar. Então cruzamos parte do Parque Forestal para atravessamos novamente o rio Mapocho e seguirmos até a calle Pío Nono, a rua do funicular, já no bairro Bellavista.iphonemasato 187plaza mulato cerro san cristobalA bonitinha Iglesia de la Vera Cruz, uma casa na Plaza Mulato e o íngreme Cerro San Cristóbal.

A Pío Nono é uma rua universitária. Tem a Universidad San Sebastián e a Facudad de Derecho, então é uma rua cheia de bares onde os estudantes vão depois da aula. É uma região mais boêmia [pé sujo] e mais jovem, com albergues e lanchonetes. Uma rua depois fica a calle Constitución, completamente diferente. Mais austera, com restaurantes e bares . Entre elas fica o Patio Bellavista, uma imensa “praça de alimentação”. Como era hora do almoço, a fila para o funicular não estava grande. Aguardamos uns 20 minutos, que passaram rápido porque ficamos vendo os bondinhos subindo e descendo. Pois é, o funicular é um bondinho mais ou menos como o trenzinho do Corcovado, puxado por cabos, e ele sobe quase 300 metros!

Apesar de ter uma imensa imagem de 14 metros da Imaculada Conceição, o nome do morro vem da família San Cristóbal, que tinha uma pedreira ali. Antes de virar um parque e um santuário, o cerro era usado como um importante observatório astronômico. O cerro fica dentro do Parque Metropolitano, o maior parque público de Santiago, com piscinas, jardins, restaurante, um museu e um zoológico. Há duas entradas, pela Pío Nono e também pela Pedro de Valdívia, por onde se sobe de carro, bicicleta ou a pé [pense mil vezes, a subida é longa e cansativa]. Outrora havia um teleférico. A subida de funicular é a mais popular, e pode-se comprar entrada com parada no zoológico. O ticket ida e volta até o topo custou 2,600 pesos. Mais informações você encontra aqui.

A subida de funicular foi legal e o topo tinha uma vista espetacular da cidade e da Cordilheira dos Andes, mesmo com o smog [smoke (poluição) + fog (névoa)]. As fotos não fazem jus ao tamanho das Cordilheiras. Impressionante! Mesmo para quem vive numa cidade com tanto relevo. E ainda havia picos com neve! A estátua da virgem ficava mais para cima e julguei que a vista seria melhor ainda. Ledo engano, não fez tanta diferença. Não eram tantos degraus, mas estava mais quente que suvaco de padeiro, parecia que eu estava numa prova do Survivor. E pensar que há quem suba de joelhos! A única recomendação é tomar cuidado com os degraus de ardósia. Quando molhados, escorregam lindamente. E eu vi um homem cair. Não ri porque eu também quase caí. Descemos tudo em busca de um lugar para sentar e algo gelado ou coisa parecida. Entramos no Patio Bellavista e acabamos no… Starbucks. Podem julgar, mas aquilo foi uma parada estratégica – bebida gelada, ar condicionado, bancos confortáveis e banheiro limpo! Só uma observação: em muitos lugares do Chile, o banheiro é pago, mesmo em shoppings, não se espante – conto a minha experiência num outro post.c san cristobal subidaSan Cristobal 11San Cristobal 6San Cristobal 4San Cristobal 15

Mais ou menos revigorados, atravessamos mais uma vez o Mapocho [o rio Toddynho] e pegamos o metrô para o hotel. No caminho, compramos água e umas bobagens como gelatinas e panetone. Como tínhamos que trocar mais dinheiro, fomos ao shopping, menos o meu tio.

Trocamos dinheiro na Afex do subsolo, apenas o suficiente para as despesas do dia seguinte, pois a cotação era ruim. Eu tirei um dinheirinho do caixa eletrônico também [Exatamente no dia anterior, o governo tinha aumentado o IOF de saques e débitos fora do país, o que deixou muita gente p. da vida]. Meus pais e minha tia voltaram ao hotel, exaustos. Eu continuei, mas não me animei em ver as lojas, apenas fui ver a maquiagem que tinham me pedido [custava quase o mesmo que no Brasil] e comprei umas garrafinhas d’água para o dia seguinte. Saí e andei andei até a av. Vitacura com Isidora Godoyechea, a parte mais moderna da cidade. As ruas estavam desertas, apenas uns guris esperando o ônibus. Apesar de ser tudo muito grande, alto e novo, não me disse muita coisa, mais ou menos como a Faria Lima, mas sem carros. Gostei apenas da fachada do hotel Intercontinental, um enorme jardim vertical! Voltei para o hotel e todos já estavam dormindo. Comi umas bobagens e enrolei porque estava com preguiça de escovar os dentes. Depois arrumei as coisas e finalmente dormi [passei o fio dental e escovei os dentes, não se preocupe].

> Mercado La Vega: Calle Davila Baeza. Entradas por Salas e Nva Rengifo. Metrô Patronato.

> Caleta Lastarria: Villavicencio, 395 [esquina com a José Victorino Lastarria.

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